segunda-feira, 18 de maio de 2015

Os sonhos de Grete Stern



Grete Stern (Wuppertal, 1904-Buenos Aires, 1999) tem um percurso fotográfico notável. Discípula de Walter Peterhans, responsável pelo primeiro curso de fotografia na Bauhaus, ela associa-se a Ellen Auerbach, e abrem em Berlim o estúdio fotográfico ringl + pit. É no auge da República de Weimar – e com a fotografia revelando talentos que revolucionaram para sempre o olhar na arte (Moholy-Nagy, Albert Renger-Patzsch e Umbo (Otto Umbehr) – que elas desenvolvem na linguagem experimental, publicitária e nos retratos as novas sintaxes da Nova Visão e da Nova Objetividade. O nazismo obriga a Bauhaus a fechar suas portas, e aqueles que puderam deixaram o país. Grete vai, em 1933, para Londres com o companheiro Horacio Coppola e, em 1936, exila-se em Buenos Aires, onde fixaria residência.

Um rigor sem concessões e uma enorme variedade nas temáticas em foco. Registros urbanos, especialmente de Buenos Aires, pesquisas antropológicas, como a série dos aborígines do norte argentino, até o diálogo, nos anos 1940, com o grupo de artistas concretos Madí. O leque de sua produção fotográfica revela sintonia com a intelectualidade da época (retratos de Bertolt Brecht, de Jorge Luis Borges e também de Flávio de Carvalho).

O Museu Lasar Segall escolheu as 46 fotos* que se conservaram da série completa de 140 fotomontagens publicadas em Idilio – La revista juvenil e femenina, de 1948 a 1951. Apresentada pela primeira vez no Brasil, essa série encontra-se reproduzida integralmente no catálogo da exposição. Essas fotos resultaram de um trabalho conjunto para a página semanal El psicoanálisis le ayudará: as leitoras enviavam à revista seus sonhos, que, por sua vez, eram analisados por dois psicanalistas (Enrique Butelman e Gino Germani, ambos sob o pseudônimo de Richard Rest) e estavam visualmente representados pelas fotomontagens de Grete. Se a análise tem raízes na prática freudiana e junguiana, as fotomontagens estão encravadas na forte tradição do expressionismo, do dadaísmo e do surrealismo.
As sonhadoras revelavam-se mulheres encapsuladas, agônicas, “al borde de un ataque de nervios”, soçobrando aos padrões de uma sociedade machista argentina. Não há como dissociar esse imaginário feminino das personagens dos romances de Manuel Puig. A liberação do desejo se produz, indefectivelmente, por meio dos sonhos.











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